entrevista

Dezembro de 2009

O autor fala sobre si e como se inspirou em escrever o thriller jurídico Justiça Insólita.

projetos

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Indispensável para construir uma nação melhor.

ENTREVISTA

Em seus 46 anos de vida, Hamilton Castardo dedicou, pelo menos, 12 de uma carreira de escritor começando por livros técnicos, poesias e atualmente à literatura adulta com os thrillers jurídicos. Nascido em Jundiaí, próximo à capital de São Paulo, desde muito jovem já demonstrava o gosto pelos livros e pela leitura, lia livros de bolso, estórias em quadrinhos e gostava de ir ao cinema. O gosto pela leitura e a preponderância pelos livros foi uma evolução ao longo de seus anos. Em sua carreira profissional escreveu vários livros jurídicos, ministrou aulas no curso de direito, inclusive na PUC-Campinas. Mas, além dos poemas publicados no início da carreira, queria escrever um romance. A Plano Editora propiciou-lhe esta oportunidade. Em 2009 publicou o thriller jurídico Justiça Insólita, o que levou os leitores a questionar algumas razões e dogmas que não mudam rapidamente. Esta produção foi fruto do convívio com aqueles que figuram como autor e como réu em processos administrativos ou judiciais, não raro de difíceis soluções. Nesta entrevista, Hamilton Castardo fala sobre sua forma de escrever, seu novo livro, os motivos que o levaram a escrever sobre um tema difícil e sobre seus projetos para o futuro.

revista - como você ingressou na literatura?

O ser humano imita algo ou alguém. Desta forma segui alguns exemplos. Normalmente a criança vê alguém lendo, percebe algum livro por onde passa, outros livros sobre a mesa, no banco do carro. Além disso, a descoberta do conteúdo, as tramas, a luta do bem contra o mau, contidos nos livros e filmes me instigam. O legado que obtive desde criança, deixado ou produzido por muitos escritores é algo que me impulsiona. O bem maior é propiciar às pessoas a mesma oportunidade que eu tive.

REVISTA - Dos quadrinhos para os livros?

Sim, no início eu lia muito quadrinho. Em seguida eu li os chamados pocketbooks, ou livros de bolso. Eram fáceis de carregar e a leitura era rápida. Eu não conseguia deixar o livro enquanto não chegasse a ultima linha.

REVISTA - Como sua obra tem sido recebida no mundo?

R – A receptividade está além do que eu esperava. Eu não me considero um escritor. Sou alguém que de forma amadora pratica o hábito da leitura e da escrita. O compromisso de escrever com o prazo demarcado pela editora não me satisfaz. Tenho outra atividade. Aproveito o tempo livre, normalmente à noite e finais de semana. O que sei é que o livro de qualidade bem feito e bom por si mesmo será duradouro, já outro que não seja bom vai perecer, sua existência é efêmera.

REVISTA - Além desta obra do gênero romance você já escreveu livros técnicos. Como é isso?

Sim, eu escrevi vários livros na área de Direito. As técnicas para escrever são diferentes. No mundo da literatura, além do conteúdo deve-se observar a forma para satisfazer o leitor. Para escrever este gênero, thriller jurídico, reuni o que aprendi durante a minha vivência no mundo jurídico. Assim, nasceu o livro Justiça Insólita. Ele atende ao que os leitores gostam: de capítulos consistentes, ora curtos ora longos, e sempre com final forte. A percepção é que a história progride e estabelece um elo que os leva a virar a página e até esperar o dia seguinte para continuar a leitura. No romance tem muitas cenas visuais.

REVISTA - Qual a origem do gênero thriller jurídico?

A origem é remota. Posso citar vários autores que escreveram algo a respeito das idéias jurídicas em romances. Por exemplo, Victor Hugo, Os Miseráveis, Shakespeare, Mercador de Veneza, Franz Kafka, Processo. Hodiernamente, penso que foi o romance Acima de Qualquer Suspeita de Scott Turow que se inaugurou, com uma nova visão, o gênero thriller jurídico, que é um dos mais populares da ficção atual. Ele retratou a rotina dos trabalhos jurídicos e as situações que envolvem os juízes e advogados nas suas mais variadas vertentes. Mais proximamente, John Grisham obteve a sucesso e trouxe importantes contribuições para o gênero.

REVISTA - Como a realidade brasileira e jurídica influenciou o seu trabalho?

Penso que escrevo sobre como a lei impera nas relações e quais os reflexos nas pessoas segundo a interpretação e aplicação das normas. De certa forma, o sistema em que a lei determina tudo na vida das pessoas não torna a vida melhor ou pior, é uma escolha. Também, não há a busca da justiça, o que se quer é finalizar um conflito, delimitar os direitos e prescrever deveres. Há várias indagações a respeito do tema “lei versus justiça” em minha obra. Em algumas passagens de forma bem cristalina.

REVISTA - Como escreve? Como é o seu processo de criação literária?

Escrevo em papéis soltos. Planejo tudo após ter o livro escrito em minha mente. O respeito ao leitor é algo que levo em consideração. Após escrever os capítulos em folhas soltas coloco-as em certa ordem e às vezes as mudo para ver como ficaria a estória. Escrevo de uma só vez e depois organizo. Melhor, o trabalho me organiza. Após o primeiro escrito, deixo amadurecer como um bom vinho, depois releio, acrescento, retiro e moldo.  O formato deve ser adequado à mensagem. Escrever é uma atividade solitária, introspectiva. Bom, solitário quanto ao mundo exterior, pois no romance adentra-se o mundo dos personagens que criam vida e falam com o escritor. É preciso colocar o leitor em posição visual de entender a estória, os fatos, a narrativa. As paisagens são criadas, como se o escritor fosse um verdadeiro arquiteto literário.

REVISTA – Nova Virgínia é um lugar fictício? Qual o motivo?

Sim, o Estado de Nova Virgínia é fictício. É um lugar de muitos prédios antigos, que se contrapõem aos arranha-céus modernos. Economicamente é estável e o sistema judiciário é sistematizado segundo Hans Kelsen, com a constituição no ápice da pirâmide. Há a primeira e segunda instância, além da Suprema Corte. Um local apropriado para desenvolver um thriller jurídico, pois se aproxima do sistema jurídico adotado no Brasil.

REVISTA - Em Justiça Insólita você aborda um Sistema Judiciário ideal?

O que se quer da justiça é um sistema célere, que o cidadão tenha a sensação do risco pela deslealdade e que o bom cidadão saiba que seu pleito será apreciado rapidamente. Creio que atualmente há muitas ações voltadas para isso, repercussão, súmula vinculante, etc. O sucesso de um sistema célere repercute nas finanças públicas e privadas e também nas situações sociais que podem inibir a marginalidade.

REVISTA - E quanto aos impostos, o que o levou a escrever um thriller jurídico com este tema?

O sistema de intimidação quanto à sonegação é pouco divulgado, apesar de ser eficiente e aplicado em todo momento. Sem a divulgação dos valores cobrados, da quantidade de pessoas que são convidadas a prestar contas ao fisco, das condenações por sonegação, lavagem de dinheiro, etc, a norma aplicável não tem evitado mais crimes dessa natureza. O cidadão precisa se conscientizar da importância do pagamento do “imposto” e a exigência do seu retorno à sociedade. A sensação de impunidade precisa acabar. O livro coloca os leitores em condição de observar um cidadão que está sob fiscalização e os perigos para ele, eventual sonegador, e sua família. O embate jurídico é em torno disso. Claro, regado a reviravoltas, acontecimentos inesperados, investigação, romances e tribunais.

REVISTA - Qual a importância deste livro?

O propósito deste livro, além de entreter, é elucidar. Cada escritor tem um propósito. Obviamente que o livro tem a missão de transportar as pessoas para outros lugares, outras dimensões, mas isso tudo transfere a elas experiências e as tornam mais maduras. Há sim uma tendência didática e algumas dicas como experimento. O direito está presente na vida de todas as pessoas, basta verificarem a quantidade de processos no judiciário. Esta situação estabelece nas pessoas a sede em conhecer mais sobre as leis e a justiça. Este livro tem este alcance. Os sentimentos e situações são delineados. Assim, o leitor pode até prever o que acontecerá se estiver no lugar o protagonista. Alguns comentários tecidos por leitores sinalizam neste sentido.

REVISTA – Como você vê o tema thriller jurídico?

Assuntos sérios aborrecem. Livros que tratam de questões sérias, talvez. Perguntas como: alguém tem o direito de morrer? E de matar? E se for para salvar a si próprio? Ou sua família? O thriller jurídico trata dessas indagações, de uma situação que leva os cidadãos a pensar, participar e indagar. Se tais assuntos não lhe interessam, seu senso de sociedade e evolução está equivocado. Logo que ler algo assim, jamais ficará satisfeito com outras leituras. Veja Os Miseráveis (Victor Hugo) ou Crime e Castigo (Dostoiésvsky).

REVISTA - Quais obras literárias lhe influenciaram?

Sou eclético quanto as leitura, talvez seletivo quanto aos temas, mas não quanto aos autores. Gosto de Mario Quintana, Vinicius de Morais, Cecília Meirelles, Saul Below, William Faukland e Ernest Hemingway. Atualmente, leio Scott Turow, John Grisham, John Hart e Richard North Peterson.

REVISTA - E quais as suas principais características ao escrever? De onde vem as ideias para os textos?

Tento transmitir ao leitor todas as sensações vividas pelo personagem. Para isso, escrevo pensando na cena, como o personagem está se movimentando, a disposição dos móveis ao seu redor, se as árvores e os arbustos se movimentam com o vento, se o sol adentra o ambiente ou se nuvens negras cercam o escritório, ou mesmo se os personagens sentem o cheiro de terra molhada prenunciando uma chuva a qualquer momento. É a visibilidade. O leitor imagina e enxerga o que lê. Claro, cada um segundo a sua formação de toda ordem, cultural, religiosa, circunstancial, empírica, enfim. No livro Justiça Insólita, o leitor fica preso às seqüências envolventes, tirando suas conclusões de quem seria o culpado, sobre o conceito de justiça e a respeito do capitalismo exagerado. É uma trama intrigante e envolvente, que mostra os bastidores dos tribunais nos casos de sonegação, lavagem de dinheiro, cumplicidade, roubos, crimes por computadores, quebra de sigilo, tudo colocado com perfeita sofisticação, levando o leitor ao mundo das leis e a sua vida real. Uma verdadeira interação.

REVISTA - Qual a importância dos diálogos na obra?

Cada autor lida com os diálogos a sua maneira. O diálogo é o arco-íris do texto, dele se compreende o anseio e cria a empatia do leitor com os personagens. Por exemplo, no livro Justiça Insólita indaga-se: a justiça é a lei? Jefferson teria simulado tudo? Alguém da família seria culpado? Os e-mails recebidos seriam avisos ou ameaças? Pode um único homem julgar e decretar toda uma vida à prisão? Jefferson conseguirá conviver com o fardo de condenar sua esposa à prisão? Os impostos cobrados são necessários? Como se sente alguém que tem uma pesada cobrança de impostos com multa e um processo criminal? Como se desenrola o processo? O que há de se fazer? A sensação da trama e do ambiente jurídico é harmônica com o ritmo dos acontecimentos. Diante da situação o protagonista questiona a verdadeira essência da justiça.

REVISTA - Ao se ler algumas passagens de Justiça Insólita é possível imaginar imediatamente os cenários em seus detalhes, as sensações do anoitecer ou amanhecer e os personagens se movimentando, a que se deve isso?

É uma questão de estilo. Alguns escritores gostam de diálogos, outros de imagens. O equilíbrio é a melhor solução, ambos devem estar no ponto certo do texto para exercerem um determinado poder. Para mim livro deve ser instigante. Imagino um romance, os personagens são criados para compor as cenas, são colocados no texto conforme suas características, seus relacionamentos e a partir daí criam vida. Depois, não me abandonam mais. Há uma idéia central, um núcleo de diálogos, de cenas, tramas e personagens. O romance já está escrito no meu subconsciente. O trabalho é transformá-lo em palavras. Claro que à medida que se escreve, os personagens tomam algumas decisões que desencadeiam outras ações e situações. Mas, é a mesma história. Justiça Insólita trata de um surpreendente caso de sonegação fiscal. A empresa de Jefferson é envolvida em uma fiscalização com participação da polícia federal, promotores federais e os tribunais que decidirão se ocorreu a sonegação e qual a pena para os culpados, que pode ser de prisão e multa. Os leitores são fisgados pelas suspeitas, pelas descobertas, pelas razões de cada personagem, pela necessidade do ser humano, pela motivação e objetivo de cada um. Escritórios de advocacia, escritório de investigação, delegacia da polícia federal, tribunais de primeira e segunda instância são retratados em seus detalhes e o leitor é transportado para dentro destes ambientes para viver intensamente os acontecimentos.

REVISTA – Chama a atenção que você escreve no presente. Em outros livros os autores narram as estórias no passado. Qual o motivo?

Sim. Ótima observação. No meu livro Justiça Insólita eu quero levar o leitor para dentro da situação vivida pelos personagens. Jefferson, Jacqueline, Roger e Max vivem as situações no presente. As ações acontecem no mesmo tempo em que o leitor se identifica com o momento, enxergando, vivendo, sentindo, passando de triste para alegre, de vencido para intrépido, mudando de humor a todo o momento. A narração no pretérito leva o leitor a obter um conhecimento ou uma informação sobre as vidas e os acontecimentos no passado dos personagens. É isso, a ideia é a empatia do leitor com o personagem do capítulo e viver intensamente o que é transmitido. Mas, antes de tudo, é uma questão de estilo. Não gosto de escrever com ênfase em “backstory”, mas com os fatos no presente. Entendi esta ideia quando estive nos EUA e apreciei as lições de Linda Seger. É o presente que possui carga dramática, o agora vivido pelos personagens determinam dinamismo aos acontecimentos.

REVISTA - O que pensa sobre o mercado literário no Brasil?

Penso que o custo do livro é o elemento preponderante à opção de se ler ou não. As tiragens pequenas encarecem o livro, o que induz a ler pouco, que por sua vez induz às tiragens pequenas. É cíclico. Somente uma energia pontual e bem aplicada pode mudar o cenário. Para que possamos ter uma geração de cidadãos educados, cultos e que ajudem à Nação é necessário popularizar o livro e incentivar a leitura, bem como promover oficinas para descobertas de novos escritores. Creio que se conseguíssemos equalizar o tempo que o brasileiro fica à frente da TV com o tempo que destinaria à leitura, teríamos um ganho circunstancial.

REVISTA - O que você pensa sobre o acordo ortográfico?

O acordo ortográfico visa unificar a gramática de todos os países lusófonos do mundo, que são: Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste (Comunidade dos países de Língua Portuguesa (COLP). O Brasil tem a maioria dos falantes dessa língua e que é a sétima língua mais falada do mundo. Eu penso que o acordo é um pacto de colaboração entre esses países, na tentativa de ampliar os horizontes de publicações em todos os paises engajados. Apesar de tudo que se fala, as variações semânticas e de sintaxe, bem como as línguas regionais de cada país continuarão a refletir na compreensão do que se escreve. Os dicionários continuarão em alta.

REVISTA - Qual o seu próximo livro? Pode revelar algo?

Tenho sim alguns projetos, algumas páginas já escritas do próximo livro. O posso dizer é que será um tema palpitante. Conterá a mensagem, ora explícita ora subliminar de perigos que nos rondam todo momento. Aguardem algo que retratará o advogado em busca da justiça, com a peregrinação dos caminhos necessários que trilham todos que estão no meio jurídico. O tema central, claro, é segredo. O que posso garantir é que terá a característica de Justiça Insólita, na qual o desfecho é surpreendente, estabelecendo o grande final após muitas viradas.

REVISTA – Vamos esperar com ansiedade. Obrigado por falar conosco.

Obrigado a todos vocês.